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Para Além dos Fatos Nus: A Ciência como "Questão de Interesse"

A relação entre ciência e sociedade vive um momento de tensão sem precedentes. Para compreendermos as raízes da desconfiança pública, propomos um exercício analítico à luz do pensamento do filósofo e antropólogo da ciência Bruno Latour (1947–2022). Utilizaremos um cenário hipotético — embora familiar — para ilustrar a distinção crucial entre o que Latour denomina "questões de fato" (matters of fact) e "questões de interesse" (matters of concern).

O Cenário: A Crise e a Resposta Científica

Imaginemos que uma nova doença infecciosa emerge globalmente, caracterizando-se rapidamente como uma pandemia. Em tempo recorde, a comunidade científica isola o agente e, através de tecnologias inovadoras (vetores virais, RNA mensageiro), desenvolve imunizantes.

Neste cenário, a sociedade fragmenta-se. De um lado, uma adesão motivada pela percepção de risco ou por políticas sanitárias; do outro, uma resistência alimentada pela desconfiança quanto à celeridade do processo, aos interesses corporativos e aos potenciais efeitos adversos a longo prazo.

Diante desse cisma, qual é a reação padrão da comunidade científica e de seus divulgadores? Frequentemente, adota-se uma postura de autoridade baseada em fatos "frios". Cientistas e gestores apresentam estatísticas como sentenças finais, tratam modelos computacionais probabilísticos como oráculos de certeza absoluta e buscam "encerrar a discussão" apresentando o imunizante como um objeto puramente técnico, asséptico, desconectado de dúvidas ou interesses políticos e econômicos.

A tentativa é a de acalmar os incautos com a solidez do "fato". Paradoxalmente, segundo a análise latouriana, é justamente essa estratégia que exacerba a desconfiança.

A Armadilha dos "Matters of Fact"

Tradicionalmente, a ciência apresenta-se ao público na modalidade de Matters of Fact (Questões de Fato). Nesta visão, os objetos científicos (como a vacina do nosso cenário) são apresentados como caixas-pretas fechadas: entidades objetivas, indiscutíveis e totalmente purificadas de qualquer influência social, econômica ou política.

O problema, como Latour diagnosticou em seu ensaio seminal "Why Has Critique Run Out of Steam?", é que essa postura de "fatos nus" não convence mais uma sociedade reflexiva e desconfiada. Quando o cientista diz: "Isto é apenas um fato, aceite-o", ele ignora que o público percebe a complexa rede de fabricação por trás desse fato — os contratos farmacêuticos, as incertezas dos testes, as decisões políticas de distribuição.

Ao tentar esconder a "cozinha" da ciência (o processo de construção, as dúvidas, as correções de rota) para apresentar apenas o "prato pronto" (o fato indisputável), a ciência alimenta a suspeita de que algo está sendo ocultado. O excesso de certeza em um cenário de incerteza gera ceticismo, não confiança.

A Virada para as "Questões de Interesse"

Latour propõe que, para reatar o pacto de confiança, a ciência deve passar a se apresentar como Matters of Concern (Questões de Interesse ou Preocupação).

Uma "questão de interesse" não nega a realidade objetiva, mas reconhece que todo objeto científico é complexo, mediado e "imbricado" (entangled). No nosso cenário hipotético, a vacina não é apenas um frasco com RNA; ela é um híbrido que envolve:

  1. A biologia molecular do vírus;

  2. A logística de produção industrial;

  3. As preocupações legítimas com efeitos colaterais raros;

  4. Os interesses econômicos das patentes.

Reconhecer isso não é enfraquecer a ciência; é torná-la robusta. Uma ciência que admite suas "questões de interesse" é uma ciência que diz: "Aqui estão nossos dados, aqui estão nossas incertezas, aqui estão os limites dos nossos modelos e aqui estão os motivos pelos quais, mesmo considerando tudo isso, esta é a melhor ação a tomar".

Por Que Isso Importa?

A insistência em uma ciência feita apenas de fatos inquestionáveis cria um espantalho fácil de ser derrubado por teóricos da conspiração. Basta uma falha, uma revisão de dados ou um efeito colateral não previsto para que o público grite: "Eles mentiram!".

Por outro lado, tratar a ciência como uma questão de interesse permite:

  • Humanizar o processo: Mostrar que a ciência é feita de revisões constantes.

  • Acolher a dúvida: Em vez de ridicularizar o medo do público, integrar essas preocupações na explicação científica.

  • Dividir o ônus da incerteza: Não prometer um futuro garantido por modelos matemáticos, mas apresentar cenários probabilísticos honestos.

Conclusão

No cenário pandêmico hipotético, a polarização não se resolve com mais gráficos e "fatos brutos" jogados sobre a população. Ela se resolve quando a atividade científica é capaz de se mostrar como ela realmente é: um empreendimento coletivo, laborioso e, por vezes, incerto, mas que continua sendo nossa melhor ferramenta para lidar com o mundo natural.

Como nos ensina Latour, a objetividade não nasce do distanciamento das preocupações humanas, mas da capacidade de reunir, articular e responder a essas preocupações de forma transparente. Reverter a visão negativa da ciência exige que deixemos de nos esconder atrás da suposta solidez dos fatos para abraçarmos a complexidade dos interesses que constituem o nosso mundo comum.

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