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A Estrutura Comum do Conhecer: Ciência e Senso Comum no Mesmo Itinerário

Por suas próprias virtudes explicativas e capacidade de moldar o mundo, a Ciência ganhou proeminência sobre outras áreas do saber, o que lhe garantiu um status único nas sociedades contemporâneas. Em função disso, a Ciência passou a operar sob um referencial próprio, como se estivesse descolada tanto de suas bases na filosofia quanto dos próprios processos ordinários de conhecer, o chamado senso comum. Embora os trabalhos em geral ressaltem as diferenças entre ambos — apontando o conhecimento comum como assistemático, impreciso e indiferente às explicações causais —, o objetivo aqui é ressaltar a fundamental estrutura compartilhada por eles.

De fato, a preocupação em diferenciar os tipos de saber remonta à Antiguidade Clássica. A Ciência, definida como um modo de raciocínio que busca as causas por meio de demonstrações, distingue-se claramente do conhecimento tradicional, meramente acumulativo. Entretanto, e este é o ponto crucial, ambos dependem das mesmas operações intelectivas fundamentais para compreender a estrutura da realidade, o que ocorre pelo mecanismo abstrativo: ao observar um "algo", buscamos sua essência (“maçã”, por exemplo), o distinguimos de outra coisa (“...e não é uma pera”) e raciocinamos sobre ele (“sendo uma maçã, é comestível”).

Tanto a Ciência quanto o senso comum percorrem este mesmo itinerário cognitivo: um percurso que se inicia nos dados sensíveis (a percepção da maçã) para alcançar as abstrações (o conceito de "maçã" e suas implicações). A via científica, contudo, eleva este processo a um novo patamar. Ela utiliza as mesmas ferramentas para produzir teorias — que, em essência, são abstrações que buscam explicar os fenômenos —, mas o faz de um modo especial. A Ciência ascende a um nível abstrativo superior, buscando sistematicamente as causas dos entes naturais, algo que extrapola as pretensões do conhecimento comum, que, quando o faz, o faz de forma imprecisa e, não raro, errônea.

A busca pelas causas é a parada final neste itinerário do conhecer, pois estabelece os porquês de algo ser como é. Neste ponto, a Ciência penetra mais profundamente na estrutura física dos entes naturais, de modo análogo a descascar as camadas de uma cebola. É importante lembrar que, diferentemente da Metafísica, que busca compreender o ente em sua totalidade (ente enquanto ente), a Ciência experimental opera pela via demonstrativa, analisando ou decodificando este ente sob múltiplos aspectos e pontos de vista. Isso torna a Ciência uma atividade intrinsecamente inesgotável, porém constantemente aperfeiçoável.

Em suma, podemos dizer que a Ciência assume a via natural do raciocínio ordinário como sua estrutura fundamental, mas se lança para além dela. Ela busca relações e propriedades que transcendem a percepção abstrativa mais imediata, decifrando os elementos constitutivos e funcionais dos entes na natureza. Poderíamos, assim, defini-la como uma extensão ou um modo especial do intelecto humano. Este processo, quando bem estruturado por seu saber subordinante, a Metafísica, é capaz de nos fornecer um quadro ainda mais realista e holístico da estrutura da Natureza. O divórcio histórico entre estes saberes, contudo, nos trouxe problemas significativos, mas isso é tema para uma outra discussão.


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