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A Dimensão Tácita: A Matriz Subsidiária como Condição de Possibilidade da Ciência


Na formação acadêmica contemporânea, somos frequentemente condicionados a privilegiar a formalização proposicional: o dado quantitativo, o axioma lógico, o artigo publicado. Todavia, Michael Polanyi, em sua obra seminal A Dimensão Tácita (1966), adverte que o conhecimento científico não se esgota em sua expressão verbalizada. A sua tese central — "sabemos mais do que somos capazes de expressar" — aponta para a existência de uma infraestrutura cognitiva implícita, sem a qual a ciência explícita seria inviável.

Para compreender a epistemologia da prática científica, é imperativo analisar a Estrutura do Conhecer, que Polanyi descreve através da dinâmica entre dois termos: o Proximal e o Distal.


A Primazia da Consciência Subsidiária

Todo ato cognoscitivo opera mediante uma estrutura vetorial "de-para" (from-to). Nossa atenção se dirige a partir de (from) um termo proximal para (to) um termo distal.

  • O Termo Distal (Foco): O objeto da nossa atenção focal (e.g., a estrutura molecular, o diagnóstico clínico, a interpretação de um texto).

  • O Termo Proximal (Subsidiário): O conjunto de pistas somáticas, instrumentos internalizados, categorias teóricas e memórias sobre as quais nos apoiamos.

Neste esquema, a consciência subsidiária não é um acessório periférico; ela é o substrato constitutivo da prática. A excelência científica não deriva meramente da acuidade focal, mas da riqueza e da sedimentação do repertório subsidiário que "alimenta" e sustenta a intelecção do objeto.

Essa dinâmica desdobra-se em quatro aspectos fundamentais:

1. O Aspecto Funcional (A Vetorialidade da Atenção)

Refere-se ao mecanismo pelo qual nos apoiamos nos elementos subsidiários para projetar nossa atenção no foco.

  • Definição: O conhecimento subsidiário atua como uma extensão do corpo do pesquisador (indwelling).

  • Na Prática Acadêmica: Considere o uso de instrumentação complexa, como a microscopia eletrônica. O pesquisador não dirige sua atenção focal para os mecanismos operacionais ou táteis do equipamento; estes residem em sua consciência subsidiária. Ele "habita" o instrumento, olhando através dele para captar a morfologia celular. Se a competência subsidiária (o manejo técnico) for insuficiente, a funcionalidade cognitiva colapsa e o objeto de estudo torna-se ininteligível.

2. O Aspecto Fenomênico (A Integração da Gestalt)

Diz respeito à transformação das pistas subsidiárias em uma totalidade coerente e observável no foco.

  • Definição: É a percepção de que elementos díspares na consciência proximal se integram para formar a aparência unitária do objeto distal.

  • Na Prática Acadêmica: A análise de uma imagem radiográfica por um especialista. O radiologista não foca isoladamente nos gradientes de densidade ou nos padrões difusos de cinza (pistas subsidiárias); sua mente realiza uma integração tácita desses elementos para revelar a entidade patológica (o fenômeno). A clareza do fenômeno observado é diretamente proporcional à sofisticação da matriz subsidiária que o cientista é capaz de integrar sem esforço consciente.

3. O Aspecto Semântico (A Hermenêutica dos Dados)

Refere-se à atribuição de significado ao objeto focado, derivado das pistas subsidiárias.

  • Definição: Os elementos subsidiários funcionam como vetores semânticos; eles apontam para além de si mesmos, conferindo inteligibilidade ao foco.

  • Na Prática Acadêmica: Diante de um dataset complexo ou de resultados experimentais anômalos, o pesquisador neófito pode perceber apenas ruído estocástico. Em contrapartida, o cientista sênior, munido de um vasto estofo teórico e experiencial (subsidiário), discerne uma tendência significativa ou uma nova correlação causal. O sentido não reside no dado bruto per se, mas na projeção semântica que o conhecimento tácito lança sobre ele.

4. O Aspecto Ontológico (O Compromisso com o Real)

Representa a compreensão da natureza da realidade que emerge dessa integração.

  • Definição: É através desta estrutura tácita que o cientista estabelece contato com a realidade, compreendendo-a como uma entidade abrangente e inesgotável, capaz de se manifestar de formas imprevisíveis no futuro.

  • Na Prática Acadêmica: É a convicção epistêmica de que a teoria ou o modelo investigado toca a estrutura ontológica do universo. Essa "crença racional" na realidade de entidades inobserváveis (como quarks ou campos gravitacionais) fundamenta-se na coerência interna sentida na dimensão tácita, validando o esforço de pesquisa continuada.

Conclusão: O Cultivo da Matriz Cognitiva

A contribuição de Polanyi para a academia reside na demonstração de que a excelência científica é o corolário do enriquecimento da consciência subsidiária.

O que habitualmente denominamos "intuição" ou "insight" não é um processo místico, mas a manifestação de um repertório subsidiário robusto, "alimentado" por anos de rigor metodológico, leitura crítica e prática laboratorial. O cientista deve dedicar-se à internalização de teorias e técnicas até que estas transcendam a condição de objetos externos e se convertam na matriz subsidiária através da qual ele interpreta o mundo.

Negligenciar a dimensão tácita em favor de uma objetividade puramente explícita é tentar edificar o conhecimento sem alicerces. Para avançar na fronteira do saber (aspecto ontológico) e desvelar novos significados (aspecto semântico), é imperativo nutrir, contínua e disciplinadamente, essa base subsidiária invisível, porém essencial.

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